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O ESTRESSE MATA O TRABALHADOR UM POUCO POR DIA

Maria Luiza de Oliveira (*)

“Minhas mãos estão suadas, meus pés, gelados. Hoje vai ser mais um dia sem almoço. O relatório tem que ficar pronto às duas da tarde, senão a chefia vai me comer o fígado. Se meu marido não tivesse falado daquele jeito comigo, se meu filho estivesse melhor na escola, se eu conseguisse dormir mais, se a minha pele fosse mais bonita… Vou me concentrar no relatório, que já passa de uma hora. Puxa, que lindo aquele vestido da vitrine! A Paula também gostou. A Paula até que está melhor agora que… Ah, o relatório. Detesto a cara que o chefe faz quando eu entrego depois do prazo. Só o jeito de ele dizer ‘Joana’…”

Esses pensamentos são fictícios, assim como Joana. Entretanto, a condição de estresse é algo bem real para milhares de pessoas: desconforto físico, insônia, ansiedade, dispersividade, descuido ou mesmo distúrbio alimentar. É o caminho para sintomas (e doenças) mais graves. Na melhor das hipóteses, vai matando um pouco por dia, solapando a alegria de viver e a capacidade de trabalho.

Quando isso ocorre, gente antes competentíssima passa a ser um problema para o empregador: produção baixa, absenteísmo, mais despesas médicas, risco de afastamento definitivo. Cria-se um ciclo vicioso: dissipação de energia–falta de foco—estresse–baixa produtividade. Em tais condições, dificilmente a pessoa cria novas soluções aos desafios do trabalho. É sofrível no relacionamento interpessoal e pode estar driblando uma depressão profunda.

Como se sabe, nosso organismo foi feito para enfrentar situações tensas. Nos momentos de perigo, nossa fisiologia se prepara para a luta ou a fuga. Passado o perigo, o corpo relaxa e volta ao funcionamento normal. O problema do estresse é que essa preparação é constante e independe do que esteja ocorrendo lá fora. Como o “perigo” não passa, não se baixa a guarda e não se completa o ciclo preparação—ápice–relaxamento.

Os fatores de estresse são múltiplos, assim como são também múltiplas as possibilidades de saneamento e prevenção. Nunca é demais lembrar alguns dos cuidados mais conhecidos: não espichar a jornada de trabalho noite adentro, manter a mesa de trabalho limpa e desobstruída, usar agenda e organizar no tempo as atividades do dia. Também é básico habituar-se a pequenas paradas para reenergização, além de cuidar para que circunstâncias externas não nos assaltem além de um limite seguro.

Joana está no escritório, sentada há horas, perdida no seu caos interno. Vamos imaginar como é ficar dentro da sua pele: com a respiração curta e superficial, ela mal percebe que ocupa um espaço físico. Tem sobrecarga de energia nos braços, ombros, pescoço e cabeça. Como são poucas as exigências de movimento da boca do estômago até sola dos pés, a circulação sanguínea fica prejudicada e as pernas, inchadas. Os pés, então, só são lembrados porque estão frios.

Já que é ficção, vamos dar bem-estar imediato a Joana? Um passarinho lhe contou que, naquelas condições, atrasaria duas horas com o relatório. Então, pensou ela, por que não parar quinze minutos para recompor as energias e depois trabalhar melhor e mais rápido? O atraso resultante diminuiria para meia hora.

Como primeira providência, respirou. Soltou o ar que vinha retendo pela sensação de pânico; inspirou, expirou novamente, inspirou com prazer, expirou. Nessa mexida, até a barriga, que estava imóvel, voltou a ter vida. Daí ela notou que precisava ir ao banheiro já fazia tempo. No toalete aproveitou para relaxar todos os músculos do corpo. Voltou para sua mesa e tirou os sapatos. Alisou o carpete com a sola dos pés, mexeu os dedos, rodou os tornozelos; esfregou as mãos uma contra a outra, se espreguiçou, bocejou (já que é fantasia, ninguém percebia nada). Nesse momento para si, esqueceu o relatório, o filho, o vestido da vitrine, tudo, para se concentrar apenas no seu corpo. Resolveu observar mais de perto a respiração e, cada vez que soltava o ar, soltava também o peso do corpo onde estava apoiada (as costas, no espaldar, as nádegas e coxas, no acento, os pés no chão). Fez de conta que estava no lugar mais lindo que já havia conhecido. Sentiu o prazer simples e gratuito que é respirar e ocupar um lugar, um volume só seu, no espaço.

Com a pequena parada, conseguiu o nível de harmonização física, emocional e mental suficiente para se concentrar. Isso não significa que tenha ficado lerda, ou mais passiva do que estava antes. Simplesmente, tomou posse do seu reino — o seu corpo.  Voltou ao relatório com total concentração e não se esqueceu de um único detalhe. Terminou antes que o chefe voltasse do almoço. Sentiu-se feliz e realizada.

Parar, respirar, sentir o corpo é apenas um prelúdio para a meditação e o relaxamento profundos, mas já reverte o jogo. Joana passou a fazer isso diariamente e, mais tarde, começou a freqüentar um grupo de meditação. Conforme o tempo passa, vai ganhando mais clareza quanto a começo, meio e fim das suas empreitadas, no curto prazo e no longo prazo. Agora tem mais tranqüilidade para avaliar o potencial de recursos de que dispõe, discriminar o que lhe falta e sair à busca de complementação, além de procurar ajuda profissional. Está ficando em paz com a auto-estima. Agora a sua presença e o seu desempenho dão segurança ao chefe e aos colegas. Joana contribui para melhorar o ambiente de trabalho, mesmo que seu filho continue indo mal na escola e que o marido seja um chato. Aliás, mais equilibrada, Joana está conseguindo equacionar suas questões familiares. Aumentou a produtividade e alimenta tremendamente a produtividade da equipe. Melhor para ela, melhor para seu empregador.

Na vida real, para um empregado sentir-se bem e dono do próprio corpo, é preciso que ele queira. Também são necessários vários passos e alguns profissionais para mudar hábitos. Mas é necessário, antes de tudo, que a empresa faça a sua parte, aceitando a humanidade do seu “capital humano” e, portanto, oferecendo condições dignas de trabalho. Na vida real, a empresa precisa estar convicta de que mais vale um empregado de bem com a vida do que dois estressados.

(*) Maria Luiza de Oliveira é sócia da Movimento Presente Consultoria. Fonoaudióloga e professora de expressão corporal, é certificada em respiração holotrópica pelo Grof Transpersonal Training. maludeoliveira@uol.com.br

 

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