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FOFOCA, QUE CONVERSA É ESTA?

Gustavo G. Boog (*)

O convite para uma palestra em Florianópolis, a convite da ABRH-SC foi uma ótima oportunidade de refletir e aprofundar o tema das fofocas, muitas vezes relegado a uma posição de pouco destaque nas organizações e nas discussões gerenciais, como se fofocas fossem um “mal necessário” e que pouco temos a fazer com elas. Na realidade, as fofocas podem determinar o sucesso ou o fracasso de equipes, de projetos e de atividades no mundo das organizações. Se perguntarmos para 100 organizações se existem dificuldades com as comunicações, a resposta será sim em 100% dos casos. Exagero? Afirmo que não.

 

O que são fofocas?
A fofoca é o ato de disseminar informações sem base concreta, fazendo especulações sobre fatos futuros ou a vida alheia. São notícias sobre comportamentos de outra pessoa ou grupo, ou ainda qualquer estão dizendo que. As fofocas podem ser verbais ou escritas. Fofoca é sinônimo de mexerico, intriga, bisbilhotice.

Enquanto que a fofoca verbal envolve geralmente duas pessoas, a eletrônica pode envolver muita gente. Por sua vez, o boato é uma notícia anônima que corre publicamente sem confirmação. Equivale ao zunzunzum e ao “balão de ensaio”.

 

Muitos estudiosos estabeleceram a relação entre estilos autoritários nas organizações e as fofocas. O certo é que se o clima for de insegurança, se o que prevalece é o manda quem pode, obedece quem tem juízo, as fofocas prosperarão neste fértil solo!

Os sistemas formais de comunicação no trabalho costumam comunicar FATOS, de forma lógica, fria e muitas vezes transmitida por meios impressos ou eletrônicos. Mas as pessoas no trabalho querem muito mais do que isto, querem ter um espaço para falarem de seus SENTIMENTOS, de suas reações emocionais aos fatos comunicados, querem de alguma forma participar dos processos decisórios, querem enfim se sentir gente e não apenas recursos tratados de forma impessoal e burocrática. As pessoas querem a comunicação olho no olho, onde possam se sentir agentes da comunicação.

Dados de estudos afirmam que as fofocas são precisas em 75 a 90% dos casos. É a confirmação dos ditos populares de que onde tem fumaça tem fogo, ou a fofoca aumenta, mas não inventa. A fofoca atende a um desejo humano de se sentir parte, de poder influenciar.

 

Fofocas e clima organizacional
As fofocas podem arruinar uma carreira, podem excluir pessoas, podem ter efeitos perversos sobre o clima de uma equipe, podem acabar com a reputação de uma empresa. E isto só pode ser minimizado com uma excelente atuação dos líderes, construindo um clima organizacional favorável.

Baseados nas últimas Pesquisas de Clima Organizacional conduzidas pela nossa Consultoria em organizações de diversos portes e operando em muitas cidades do Brasil, com cerca de 5.000 pessoas, podemos afirmar que “quanto melhor for o clima organizacional, menos fofocas e boatos existirão”. Nós detalhamos a relação entre clima e fofocas e verificamos que o mesmo acontece na relação entre a boa atuação das lideranças e a eficiência dos sistemas formais de comunicação. O gráfico a seguir mostra a relação do I.S. (Índice de Satisfação) geral, que mede o quão bem está o “clima geral da organização” com a “comunicação informal” (fofoca). Quando o clima melhora, as fofocas diminuem. Quando o clima piora, as fofocas aumentam.

Disto se pode concluir que a atuação dos líderes é fundamental para que as fofocas sejam minimizadas.

Fofocas, rádio peão, rádio corredor, corredor press 

Fofocas são parte inevitável do comportamento organizacional, são uma conseqüência natural da interação entre pessoas. A grande verdade é que conhecemos pouco sobre  as características e funcionamento da rede informal de comunicações. Segundo a Public Personnel Management, cerca de 70% de toda comunicação organizacional ocorre com as fofocas e 92,4% das empresas pesquisadas não têm uma política definida para lidar com fofocas.

Na vida das organizações alguns temas são especialmente sensíveis, podendo facilmente se transformar em fofocas:

•    Compra ou a venda da empresa
•    Transferência de sede
•    Troca de altos executivos
•    Lançamento de novo produto e/ou marca
•    Retirada do mercado de uma marca
•    Demissões
•    Contratações
•    Mudanças na política de benefícios
•    Relacionamentos pessoais
•    “Puxadas de tapete”
•    Nepotismo

Segundo Allport & Postman, a fofoca tende a ter maior força dependendo:

•    da importância do assunto para as pessoas: as pessoas não fofocam sobre assuntos que não sejam importantes para elas, de alguma forma. Está implícito que deve haver um clima de certa “cumplicidade” para que as fofocas se disseminem•    da ambigüidade da situação associada com a comunicação: quando atribuímos uma possível credibilidade ao fofoqueiro

Adicionalmente, as fofocas tende a ser mais importantes se:

•    as pessoas se sentem ameaçadas ou inseguras, por exemplo com a perda de emprego ou mudanças na organização
•    as pessoas estiverem sob estresse
•    há uma mudança pendente, principalmente se for nebulosa ou mal definida
•    as pessoas sentem que os gestores comunicam de forma inadequada ou incompleta

As mensagens das fofocas circulam mais rapidamente que as dos canais formais. O fato é que os gestores não controlam as fofocas, que se constituem num canal de comunicação forte, que não pode ser desprezado. Como uma ilustração: os canais oficiais formais são uma transmissão em FM e as fofocas em AM.

Vantagens da fofoca
Segundo Gluckman e Nevo & Nevo, as fofocas têm seu lado positivo, na medida em que preenchem necessidades sociais, pois:

•    trazem os  membros de um grupo para alguma interação social
•    dão algo em comum para falar
•    aliviam a rotina, principalmente em tarefas repetitivas
•   aumentam a coesão grupal, criam mais identificação e clarificam os limites, ao falarem dos membros de outros grupos

As fofocas de alguma forma ajudam as pessoas a entenderem as regras “não escritas” da organização e dão um significado ao por que estão trabalhando juntas. A fofoca é o espaço para o politicamente incorreto, para a descrença na informação oficial e para comunicar sem a liturgia do cargo.

Fofocas masculinas e femininas 
Homens fofocam sobre o ambiente de trabalho, sobre possibilidades de promoção dos colegas e dos chefes e também sobre suas gafes e comportamentos inadequados. O que está em jogo: quem vai vencer na carreira e quem vai ficar no meio do caminho. As mulheres preferem fofocar com as amigas e parentas, e seus temas prediletos são os relacionamentos, tanto os próprios quanto os alheios.

Pesquisas recentes indicam que apesar de não podermos rotular o que os homens fazem como sendo fofoca, eles de fato fofocam tanto quanto as mulheres.

O que fazer?
Para a boa gestão das fofocas, alguns pressupostos são importantes:

  1. Gestores são os comunicadores - a comunicação é responsabilidade indelegável dos gestores. Mesmo que haja uma área de comunicações dentro da empresa, cabe a ela criar sistemas, assegurar treinamento, estimular a comunicação entre áreas e níveis, e nunca ser a comunicação. Em especial os gestores devem comunicar adequadamente e não esconder as más notícias, assim como agir rapidamente quando informações distorcidas ocorrerem.
  2. Respeitar as necessidades do pessoal – as pessoas precisam estar adequadamente informadas do que se passa ao seu redor e respeitadas quanto a esta necessidade. Os diferentes níveis de gestão têm percepções diferentes quanto as fofocas, sendo mais sensíveis os níveis mais próximos das operações. A Pesquisa de Clima Organizacional é um excelente indicador se estas necessidades estão de fato sendo respeitadas.
  3. Gestores devem usar estilo participativo – estilos autocráticos tendem a gerar fofocas, além de uma série enorme de outras disfunções organizacionais.
  4. A comunicação deve ser planejada – como qualquer atividade organizacional, as comunicações precisam ser planejadas, estruturadas e acompanhadas periodicamente quanto a sua eficácia.

As comunicações podem ser melhoradas com diversas ações concretas, que necessitam ser ajustadas ao momento e a cultura de cada organização. Entre elas destacamos:

•    Desenvolvimento das lideranças – se os líderes são os elos vitais nos processos de comunicação, é fundamental que sejam preparados para este papel. Competências de gestão de pessoas e equipes, tais como papel do gestor (versus papel técnico), liderança, equipe, comunicações, reuniões, falar em público, são críticas ao sucesso.•    Bom Dia, Equipe! – processo diário de comunicação entre os níveis da organização, com reuniões curtas e altamente eficazes, assegurando um canal “quente” de comunicações, onde as informações de cima para baixo e de baixo para cima fluem com facilidade, eliminando barreiras.

•    Reuniões de Feedback – onde sistematicamente são discutidas as percepções sobre os acontecimentos e desempenhos, de forma construtiva. Semestralmente estas reuniões assumem a formatação do processo de avaliação de desempenho.

•    Pesquisa de Clima Organizacional – periodicamente são quantificados indicadores críticos ao sucesso da organização, apresentando um raio-X completo do clima motivacional da organização. Podem também ser realizadas “enquetes” sobre temas relevantes a um determinado momento, fornecendo dados essenciais à boa gestão do clima.

•    Mapeamento 360º – um excelente instrumento de gestão, onde são confrontadas percepções da própria pessoa com as do chefe, liderados, colegas, trazendo uma base sólida para ações de desenvolvimento.

Conclusões 
Para lidar melhor com as fofocas, os gestores precisam deixar de serem chefes e evoluírem para serem líderes, precisando de programas de desenvolvimento para isto. Muitos profissionais são promovidos a posições de chefia em função de suas competências técnicas e de sua lealdade à empresa, e não recebem nenhum treinamento para o novo papel de gestão. E aí começam as dificuldades. As fofocas fazem parte da natureza humana, não podem ser eliminadas “por decreto”, mas com líderes preparados para uma boa comunicação, as fofocas ocuparão um lugar menor na vida das empresas.

Uma mensagem aos chefes e líderes: as pessoas procuram por informação assim como procuram por oxigênio. Se pudermos prover boas comunicações, espaço para os sentimentos, possibilidade de influir decisões, teremos colocado um sorriso nos lábios de cada liderado e as fofocas se evaporarão.

 

Fontes consultadas: Wikipedia, Aurélio, Rossnow & Fine, Allport & Postman – Public Personnel Management, Gluckman; Nevo & Nevo, Social IssuesResearch Center, Ricardo A. P. Xavier

 

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