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ESPIRITUALIDADE, NO TRABALHO? 

Vitor Morgensztern (*)

Espiritualidade nos negócios? Lá vem você com essa conversa fiada… Isto aqui é uma E-M-P-R-E-S-A, viu! Não estamos aqui para fazer beneficência.

Você já ouviu observações semelhantes? Eu também! Como consultor organizacional acho muito “naturais” reações como estas. Mas acredito que posso ampliar essa visão. Como alguns vocábulos sempre aparecem nessas conversas é importante os precisarmos melhor pois é muito comum, ao se falar de espiritualidade, o interlocutor pensar em religiosidade.

Espiritualidade é a qualidade de espiritual. Posso ver esse espiritual como “tudo o que não é material” ou como o encontro pessoal com a divindade (energia ou força criadora), enfim, com aquilo que transcende a materialidade do homem. Podemos dizer que a espiritualidade é algo que surge de dentro para fora do indivíduo. No meio empresarial é tomar decisões de negócios com outros critérios que não só os racionais, lógicos, objetivos, econômicos, financeiros e técnicos. Francisco Varela quando fala em reino espiritual diz “espiritual porque tem a ver com os corações humanos”. Assim, espiritualidade nos negócios tem a ver com o “coração humano” nos negócios.

Religiosidade é a qualidade de religioso, é a disposição para a religião. É a repetição do “caminho” para voltar a ter o encontro com o divino, através de orações, ritos, danças sagradas, etc. Quando esse caminho é formatado com dogmas, leis, escritos, mandamentos, doutrinas, rituais próprios, preceitos éticos, estrutura para a formação de religiosos, controle da qualidade dessa formação, e se cristaliza numa identidade com conteúdo intelectual, aí temos uma religião. As grandes religiões do mundo estabeleceram as normas do comportamento ético. Temos como exemplo, os Dez Mandamentos. A religião é algo que vem de fora para dentro do indivíduo.

A Humanidade (ou seja, nós!) está numa encruzilhada: ou acha um novo caminho ou mergulha definitivamente num estado de tecnização, de desumanização, de caos moral, de completa automatização despersonalizada. (Você já recebeu um email do colega que senta na mesa do lado?)

Devemos tomar o destino em nossas mãos, livres, conscientes, mas tendo como ideal uma nova imagem do Homem. Isso implica numa espiritualização lenta do nosso mundo, por nós mesmos. Implica em ver sentido no que fazemos profissionalmente. Em podermos exercitar solidariedade, compaixão, altruísmo, respeito pelo pequeno e pelo diferente de nós, cidadania, responsabilidade social!

Temos que desenvolver a nossa consciência; dominar a Terra (o material) e espiritualizar-nos ao mesmo tempo. Mas o que tem ocorrido é que o homem está cada vez mais unilateral e sem a consciência desse processo. Ele, ou inconscientemente despreza a Terra e só valoriza o espiritual, ou nega o espiritual, achando que tudo se explicará e resolverá com a Ciência, a matemática e o racional.

Mario Kamenetzky, da World Business Academy, numa palestra, contou a história de um jovem engenheiro, assessor de um presidente de um conglomerado alimentício. Querendo contribuir com o negócio, após fazer um minucioso estudo, o jovem apresentou ao presidente um plano de centralização de 10 unidades de processamento espalhadas em pequenas cidades, com o fechamento das outras 9 e dispensa de seus funcionários. Após digerir o estudo, com todos os cálculos de retornos financeiros, que faziam grande sentido, o presidente olhou o jovem e disse: “Engenheiro! E o aspecto humano, onde está?” Este presidente estava trazendo a espiritualidade para os negócios.

Vivemos um paradoxo muito estranho: de um lado falamos em forças produtivas da economia e vemos uma explosão da produtividade. E de outro, quando vemos os efeitos dessa produtividade (como desemprego, influência na cultura de países subdesenvolvidos, cultura do consumismo, efeitos na Natureza e ecologia) podemos falar em forças destrutivas da vida econômica. Cada vez mais, palestrantes e articulistas do mundo todo, alertam para a lógica suicida do nosso modelo econômico. Para trazer um pouco de humor (negro), lembro-me de ter ouvido que as fábricas do futuro terão dois seres vivos: um homem e um cachorro. E o homem é para alimentar o cachorro…

No limite, quando tivermos produtividade infinita teremos o mercado de consumo com poder de aquisição zero, porque estarão todos desempregados. E, aí…

Com as revoluções tecnológicas e a globalização, estamos vivenciando o chamado para que a vida econômica assuma o bastão das grandes transformações da sociedade. Só que, com esse bastão, vem junto a necessidade da responsabilidade ou, em outras palavras, da consciência. Estamos, portanto, no começo de uma nova era. Uma era de mudanças para novos paradigmas. Um processo em que já temos novas responsabilidades, mas para as quais ainda não desenvolvemos e consolidamos totalmente novos critérios (ou paradigmas, ou valores) e no qual não poderemos ser espectadores. Na vida econômica, em cada decisão que tomamos, somos os atores principais.

Rudolf Steiner, fundador da Antroposofia, pensou num reposicionamento saneador dos velhos ideais da Revolução Francesa (sem contudo visualizar essa reflexão como uma ideologia a ser imposta ao Mundo): “Liberdade no Espírito, Igualdade perante o Direito e Fraternidade na Economia”. Em outras palavras, a Economia não precisa ser um campo de guerra (ou concorrência mortal). Ela pode ser um campo de exercício de fraternidade, ou de cooperação, em que o empreendedor e os executivos põem seus talentos a serviço do bem estar e das necessidades da comunidade. Mas com um profundo sentimento de solidariedade e responsabilidade pelo todo.

Steiner, foi um incansável empreendedor, e certa vez, mencionou que alguns iniciados que atuavam na vida espiritual na antigüidade, hoje se encarnam como empresários, na vida econômica. Esse fato é muito inspirador e é com ele que quero terminar este artigo. Os empresários e empreendedores de forma natural possuem imaginação, coragem e determinação para reunir recursos materiais e transformá-los a fim de atender ao mercado. Mas aqueles que, além disso, trabalharem para expandir sua consciência e trouxerem a espiritualidade para o dia-a-dia de seus negócios, poderão se transformar nos iniciados do século XXI!

(*) Vitor Morgensztern é Consultor e Diretor da Dossier. É autor do Livro “Administração Antroposófica” e Co-autor do Manual de Gestão de Pessoas e Equipes – Editora Gente

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